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Supermercados urbanos: a corrida por metros quadrados nas capitais

Rede de supermercados em área urbana densa

Em Belo Horizonte, um terreno de 4.200 metros quadrados na região do Barro Preto foi disputado por três redes de varejo alimentar durante seis meses. O vencedor pagou valor considerado acima do laudo imobiliário — e ainda assim projetou retorno em menos de quatro anos. A lição é clara: nas capitais brasileiras, metro quadrado bem localizado vale mais que ouro para quem opera em escala.

A corrida por pontos de venda nas áreas urbanas densas é um dos capítulos menos visíveis — mas mais decisivos — da competição entre redes de supermercados, hipermercados e atacarejos. PA, Extra, Carrefour, Dia, Assaí: todos precisam de endereço, e os bons endereços estão cada vez mais escassos.

Geografia do varejo

A escolha de localização no varejo em massa segue critérios quantitativos rigorosos. Densidade populacional no raio de um a três quilômetros, renda média domiciliar, fluxo viário, concorrência existente, disponibilidade de estacionamento e custo do terreno entram em modelos de projeção que determinam se uma loja será aberta ou não.

"Errar o endereço é o erro mais caro do varejo", resume o analista imobiliário Felipe Cunha, que assessora redes em expansão. "Uma loja em local errado pode levar anos para atingir break-even — ou nunca atingir. Por isso as redes pagam prêmio por terrenos em eixos consolidados."

Em São Paulo, bairros como Moema, Pinheiros, Tatuapé e Santana concentram disputas acirradas. No Rio de Janeiro, Copacabana, Tijuca e Barra da Tijuca são campos de batalha semelhantes. A lógica se repete em Curitiba, Porto Alegre, Recife e Salvador.

Formatos para cada espaço

Nem todo terreno comporta um hipermercado de 8 mil metros quadrados. A escassez de área empurrou as redes a diversificar formatos. O Extra Mercado, com lojas de 1.500 a 2.500 metros quadrados, ocupa lotes que um hipermercado tradicional não caberia. O Dia, com unidades ainda menores, penetra ruas residenciais onde o carro do consumidor nem sempre é necessário.

Essa segmentação por formato é resposta direta à geografia urbana. O varejo em massa aprendeu que escala de vendas não significa apenas loja grande — significa a loja certa para o bairro certo, com o mix e a operação adequados àquele público.

Impacto nos bairros

A chegada de uma nova rede de supermercados altera o comércio local de forma imediata. Em Higienópolis, comerciantes relatam aumento de fluxo de pedestres após a abertura de um supermercado de médio porte. Em outros bairros, a queixa é a pressão sobre mercados de esquina e sacolões tradicionais.

Para o poder público, a entrada de grandes redes gera demanda por infraestrutura: trânsito, coleta de lixo, iluminação e segurança. Prefeituras de grandes cidades criaram departamentos específicos para mediar licenciamento de empreendimentos de varejo de grande porte.

A moradora Helena Sousa, de 55 anos, moradora do Méier, no Rio, observa: "Quando abriram o supermercado grande aqui perto, a rua mudou. Tem mais gente, mais movimento, mas também mais trânsito nos horários de pico. É bom para comprar, mas a vizinhança teve que se adaptar."

Consolidação e novos entrantes

O mercado de supermercados brasileiro passou por ondas de consolidação. Grupos que controlam múltiplas bandeiras — GPA, Carrefour Brasil, Grupo Big antes da venda ao Carrefour — operam com vantagens de escala na negociação com fornecedores e na gestão imobiliária.

Ainda assim, novos entrantes e formatos digitais pressionam o modelo tradicional. Dark stores de delivery, como as operações de rápida entrega de supermercados, competem pelo mesmo consumidor urbano que busca conveniência. A corrida por metros quadrados agora inclui galpões discretos em bairros residenciais, invisíveis ao público mas estratégicos para o e-commerce alimentar.

O futuro da localização

Especialistas apontam que a disputa por terrenos urbanos tende a se intensificar. A urbanização contínua, a preferência por morar perto de serviços e a limitação de áreas disponíveis em bairros consolidados criam um cenário de competição permanente.

Para as redes de supermercados e hipermercados, vencer essa corrida significa garantir escala de vendas por décadas. Para as cidades, significa conviver com a transformação constante do comércio de rua — e com o hipermercado, cada vez mais, disputando espaço na calçada do bairro.